Quando a realidade é melhor que a ficção

12 de agosto de 2013


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Ontem, me prestei a ver a novela Amor à vida. Me prestei – porque eu já sabia que não ia gostar do que ia ver, mas mesmo assim resolvi ver. Pra quem não acompanha a novela, ontem foi ao ar a cena em que Nicole (Marina Ruy Barbosa) morre no altar, depois de saber que seu noivo estava de maracutaia com a sua melhor amiga. Mas ela morreu de que? De câncer? Não, ela morreu de desgosto, no melhor estilo me-segura-que-eu-vou-desmaiar. Mas essa não foi a pior cena – a chegada dela ao “Céu” foi tão medonha que só quem assistiu entende, eu tive vergonha alheia pelos envolvidos! Na verdade, a história toda da Nicole foi medonha.

Em primeiro lugar, a polêmica do raspa-não-raspa a cabeça. Eu entendo todos os motivos da atriz para não raspar a cabeça – eu mesma acho que não cortaria aquele cabelão lindo se fosse ela – mas, a partir do momento que se assina um contrato para viver uma personagem que tem câncer e que vai fazer quimio, é sabido que vai rolar de perder o cabelo! Se não queria/não podia raspar o cabelo, não devia nem ter aceitado o papel, tenho certeza que muitas atrizes raspariam a cabeça rindo. Mas ok, aceitou o papel e não quis raspar a cabeça.

Dizem que, na história original, Nicole (de cabeça raspada) iria se curar e o noivo falcatrua iria se apaixonar de verdade por ela e largar a pilantragem, e eles viveriam felizes para sempre. Com a recusa da atriz ao novo corte, o autor decidiu mudar a trama – escreveu no twitter inclusive que a história seria “muito romântica, uma das mais lindas que já escrevi”. Desde quando morrer no altar, com câncer, virgem e de olho aberto é uma história romântica?? Em que mundo essa gente vive?!

O que eu fiquei pensando foi: essa história foi boa pra quem? Informou as pessoas sobre o câncer? Não, as informações surgiram todas distorcidas. Nicole teve Linfoma de Hodgkin – a mesma doença que eu tenho – um dos cânceres mais curáveis que existe. E, ao contrário do boletim ~médico ~ da personagem, não existe metástase pulmonar nesse tipo de câncer! É tão errado quanto dizer que a garota tinha câncer de próstata! “Ai, tá, mas é só ficção…” Sabe quantas pessoas se informam através da novela? Sabe quantas pessoas que recém foram, ou vão ser diagnosticadas em breve vão entrar em pânico pensando que esse foi o câncer que matou a personagem? Pior ainda, além de passar informações errôneas sobre a doença, a emissora perdeu a chance de passar uma mensagem positiva!

Chega desse clichê tenho-câncer-não-consigo-mais-sorrir. Muitas pessoas, nesse exato momento, estão encarando um tratamento pesado contra o câncer e sorrindo, trabalhando, dormindo, pagando contas, vendo tv, transando, comendo, xingando o grêmio, sabe? A vida não pára só porque se está doente. Ninguém que tenha amor à vida e um diagnóstico de poucos meses restantes vai ficar chorando tanto quanto essa personagem! Se a Nicole fosse minha amiga eu dava de relho pra parar com o mimimi!
Além disso, essa polêmica de raspar ou não a cabeça não faz nenhum sentido. Exceto por algumas poucas quimios que não causam a queda, perder os cabelos não é uma escolha para quem tem câncer. É um momento triste? Sim, é! Para uns mais, para outros menos, mas todos sentimos a diferença na nossa auto imagem. Essa história de a personagem não cortar o cabelo porque queria estar bonita no altar é tenebrosa – ela estaria com o cabelo todo falhado no dia do casamento!  Se tivessem colocado uma touca pra fingir que a atriz estava careca, pelo menos seria mais verossímil. Aí a mensagem que isso tudo passou foi: que ficar careca é feio, que o cabelo define a pessoa, de que quem tem câncer passa o dia choramingo e que o câncer mata.

Pergunto de novo: essa história serviu de inspiração pra quem?! A personagem até poderia morrer, mas que morresse lutando, servindo de inspiração, deixando as pessoas ao redor dela mais felizes, como fizeram o Dr. David Servan-Schreiber, a Hebe, Steve Jobs, e recentemente a querida Talia Castellano, entre tantas outras pessoas que tiveram amor à vida.


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